09 janeiro 2018

Emissão corporativa local deve permanecer aquecida

O mercado de capitais brasileiro pode até desacelerar o ritmo comparado a 2017 devido ao processo eleitoral, mas 2018 deverá apresentar uma continuação do ambiente favorável visto no ano passado.
Pelo menos é o que esperam economistas e agências de crédito. Todas as projeções apontam para a mesma direção: o crescimento de emissões de dívida e ações de empresas brasileiras tende a se manter, pelo menos enquanto durar o ciclo de expansão econômica e as condições monetárias favoráveis, com a taxa básica de juros em um dígito.

Em 2017, em meio ao processo de cortes da taxa Selic e a retração de desembolsos pelo BNDES, as empresas recorreram ao mercado de capitais para se financiar com uma intensidade que não se via desde 2014. O próprio Banco Central (BC) já identifica uma tendência nítida de crescimento de emissões de dívida corporativa e ações. "Existem evidências de substituição do crédito [bancário] pelo mercado de capitais pelas pessoas jurídicas", atestou Fernando Rocha, chefe de estatísticas do BC, em entrevista no fim de dezembro.

No ano passado até novembro, os números da Associação Brasileira das Entidades de Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram captação de R$ 204,8 bilhões via renda fixa, tanto interna quanto externa. Em 11 meses, o volume de recursos superou em 4,6% o total obtido em 2016.

Neste ano, apesar da esperada volatilidade decorrente das eleições, há fatores de sustentação para emissões de dívida corporativa que independem do cenário político, afirma Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais-Fipe (Cemec-Fipe). Uma taxa de juros mais baixa por um tempo prolongado e a nova posição do BNDES, com retração de desembolsos e ajuste de suas taxas às praticadas no mercado, ajudam a fomentar o mercado de capitais mesmo com alguma turbulência esperada com as eleições, pondera o pesquisador.

Com a Selic na mínima histórica, a 7% ao ano, "a obtenção de recursos por meio de debêntures ficou muito mais competitiva". De acordo com o CemecFipe, o custo médio dos títulos de dívida do gênero está abaixo da taxa média de empréstimos do BNDES e no menor patamar desde maio de 2013. O levantamento mostra que, desde junho de 2017, a taxa média das debêntures emitidas permanece abaixo do custo médio praticado pelo banco de fomento.

Em setembro, a diferença alcançava 1,34 ponto percentual, com o retorno agregado das debêntures em 9,67% ao ano ante 11,01% ao ano praticados pelo BNDES.

Os números do Cemec-Fipe indicam uma mudança grande no perfil do financiamento corporativo desde o fim de 2016, quando o volume de emissões de dívida e ações ultrapassou, pela primeira vez desde 2007, os desembolsos do BNDES. Se em 2016, o total captado por meio de dívidas e ações pelas companhias ficou 6,4% acima dos recursos emprestados pelo banco estatal, no ano passado, de janeiro a novembro, apenas os títulos de renda fixa domésticos superaram em 93,4% o crédito fornecido pela instituição de fomento.

Se forem somadas as captações domésticas e no exterior tanto na renda fixa quanto na variável, segundo dados da Anbima, os recursos obtidos por meio do mercado de capitais alcançam, entre janeiro e novembro de 2017, R$ 246,3 bilhões. A cifra representa um volume 300% maior do que o desembolso do BNDES no período. "Em 2017, começamos a ter uma recuperação gradual [das operações], mais concentrada no terceiro e quarto trimestres. Para 2018, vemos o cenário pronto [para deslanchar]", diz Ricardo Carvalho, chefe da área de corporate da Fitch.

Além das perspectivas positivas no cenário interno, com juros baixos, inflação controlada, retomada de crescimento econômico e queda do desemprego, o ambiente externo se mantém muito receptivo às emissões de mercados emergentes. E a expectativa é que continue assim no médio prazo.

"A gente enxerga, por pelo menos dois anos consecutivos, crescimento, juros em patamares mais baixos e inflação sob controle no Brasil. Com esse ambiente favorável, se nada acontecer no terreno geopolítico, esperamos que as empresas brasileiras continuem se beneficiando do apetite para o risco de investidores estrangeiros", afirma Marianna Waltz, diretora-gerente da Moody's para a área corporate na América Latina.

Conforme a analista, a demanda estrangeira tem sido tão positiva que, em 2017, várias empresas acessaram pela primeira vez o mercado internacional.
No ano passado, "a gente viu empresas brasileiras que emitiram pela primeira vez lá fora, como a Azul e a Nexa". Neste ano, outras companhias nacionais já planejam estrear no exterior, entre as quais a fabricante de cosméticos Natura, que confirmou estar em fase de estudo para uma futura operação.

De acordo com Diego Ocampo, diretor e especialista setorial da S&P, "os yields [retornos das emissões] no mercado internacional têm caído bastante e as companhias se beneficiam de melhores condições de financiamento agora".

Ocampo ressalta que vários emissores de dívida brasileiros conseguiram condições mais favoráveis no exterior no ano passado e aproveitaram para melhorar o perfil de endividamento.

Para Marianna, da Moody's, o custo no exterior voltou a patamares próximos da época na qual o Brasil era grau de investimento. E, com o retorno pedido pelos investidores em queda, emitir lá fora pode compensar até para companhias que tradicionalmente só acessam o mercado de capitais interno se a demanda externa continuar no mesmo patamar do ano passado.

"Mesmo uma empresa, como, por exemplo, de varejo com vendas 100% domésticas, pode colocar na conta a possibilidade de fazer um 'swap' da dívida [proteção cambial] e, se o apetite continuar alto, mesmo incorporando no custo o swap da dívida para reais pode ser que fique mais barato emitir lá fora", considera.

Outros fatores que podem atrair novas empresas ao mercado de capitais internacional ao longo do ano são o volume maior e o prazo mais longo das emissões. "Como o mercado no exterior tem mais capacidade de absorver montantes maiores de dívida, às vezes a questão de preço pode ser relativa, porque os investidores locais não têm apetite para tanto volume", explica Marianna.

Apenas 18,2% das operações domésticas superaram R$ 500 milhões no ano passado, e 30,5% ficaram abaixo de R$ 100 milhões, segundo a Anbima. "O exterior tem muita liquidez no mercado de bonds e o investidor de fora aceita mais risco do que o local", pondera Carvalho, da Fitch.

A perspectiva de aperto monetário nas economias avançadas, em especial pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), não assusta as agências de classificação de risco de crédito. "Nossas projeções incorporam uma trajetória de crescimento da taxa de juros pelo Fed bem tranquila. Não achamos que esse movimento vai ser tão relevante para tirar o apetite do investidor pelos emergentes", afirma Ocampo.

"Esses movimentos [de normalização de política monetária] vão acontecer de forma gradual e não vemos como entre os maiores riscos globais para 2018", afirma Marianna.

O perigo, dizem os especialistas, mora em casa. Para Carvalho, "o desconforto em relação à capacidade de recuperação [econômica] é sempre mais sensível [aos mercados] do que uma subida de juros [no exterior]". O analista classifica a reforma previdenciária como uma "bomba-relógio" a ser ativada ou desativada nos próximos três meses. "[A reforma da Previdência] é um risco grande demais, e terá impacto se as coisas não acontecerem como o previsto." Ele alerta que o projeto de mudança das regras de aposentadorias "é um direcionador importante quando se fala em ratings soberanos".

Embora as eleições sejam o principal fator de volatilidade no curto prazo, a questão fiscal pesa mais na avaliação dos investidores. Segundo Ocampo, da S&P, "se a gente vai esperar as eleições para reavaliar o rating do Brasil, a resposta é não. As incertezas não são somente derivadas das eleições, tem a ver mais com o risco de a administração não conseguir implementar medidas para equilibrar as contas fiscais".

De acordo com Rocca, "se o mercado passar a acreditar que a situação fiscal não tem solução você agrega outro tipo de componente de incerteza sobre solvência da dívida pública".

A possibilidade de corte do rating soberano, que geraria um efeito cascata em relação às notas de crédito corporativo, é um evento a ser monitorado neste ano, segundo analistas. "Um 'downgrade' do rating brasileiro geraria um efeito de rebaixamento geral de bancos, companhias de infraestrutura e muitas outras", diz Ocampo.

O efeito de um movimento de corte, porém, pode ser atenuado devido ao cenário de crescimento no Brasil e demais emergentes. "No caso de downgrade soberano, pode até existir uma separação do apetite para risco sobre papéis brasileiros, ou seja, que a demanda por títulos não seja tão afetada, por que uma coisa é ter um corte em meio a uma recessão e agora um corte ocorreria em meio a uma recuperação econômica", diz Marianna.  Fonte:Valor Econômico Leia mais em portal.newsnet 09/01/2018

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